Cotidiano

Abelardo, O Guerrilheiro de Trapo

Sempre dei atenção para moradores de rua. Em alguns casos, até parei para trocar algumas palavras com eles.

O que as pessoas não entendem é que não existe nenhum ser humano igual o outro, e isso afasta a possibilidade de conectar sua empatia com um indivíduo em estado miserável, do qual você nunca saberá quais são os reais motivos de ele ter chegado a esta deplorável condição.

O comentário que mais ouvi em minha vida sobre esse tipo de situação é: “Isso com certeza é droga, é isso que dá se afundar nessas coisas”. Não temos evidência nenhuma de que todo morador de rua percorreu o mesmo fim, que é se afastar de todos e perder tudo em função do uso de drogas. Concordo plenamente que a maioria deles usa, mas quem garante que a droga não foi só o fim e não o meio?

Certa vez, no bairro em que morava, conheci um rapaz chamado Abelardo. Lúcido e observador, descrevia para mim o que acontecia ao seu redor com precisão e certa inteligência. Era alto e aparentemente magro, pois os inúmeros trapos e cobertores que ele cortava para encaixar em seu corpo e proteger-se do frio impediam uma conclusão certeira. 

Dei alguns bens materiais meus, que não estavam em uso, para Abelardo, como por exemplo, um player de mp3 antigo mas que ainda funcionava muito bem. Infelizmente ele perdeu todos. Mas isso pra mim não importa. Pois era uma satisfação vê-lo sorrir quando me via.

Nunca tive coragem de pergunta-lo como foi que ele acabou vivendo na rua. Esta pergunta é extremamente delicada, e não pode ser feita de qualquer jeito, jogando-se as palavras ao vento. Nunca vi Abelardo usando droga, mas não me surpreenderia se ele usasse, pois as vezes é necessário de insanidade para viver na sanidade do asfalto. Entretanto, arriscaria outros palpites quanto à sua vida antes da rua, apoiando-se em sua sensatez e respeito que demonstrava comigo e com os outros que o concediam um pouco de atenção.

“O que mais me entristece é que estou no meio de muitas pessoas, mas nunca me senti tão solitário”, me dizia Abelardo. 

Algumas pessoas pensam que dar esmola é o máximo que elas podem fazer diante de um ser humano que vive na linha da miséria. Isso é totalmente equivocado. O máximo e mais nobre presente que você pode dar a essas pessoas é o direito da palavra, isto é, deixa-los dialogar e ouvir suas histórias, sem qualquer preconceito, julgamento ou juízo de valor, apenas nutrido de empatia e compaixão. 

Naturalmente que é impossível dar atenção a todos, especialmente nos dias em que você está andando na rua com pressa, atrasado para um determinado compromisso. E há pessoas ainda que tem um certo receio de dar atenção para moradores de rua, por pensarem que eventualmente poderão sofrer um assalto ou violência. Tudo isso é compreensível.

O que não é compreensível é desprezarmos o próximo devido a nossa capacidade mental incansável de procurar referências e valores pré-estabelecidos para tudo como se a vida fosse um quebra cabeça, onde você sabe exatamente qual peça irá ou não irá se encaixar. 

Respeite os moradores de rua. Você não sabe quais foram seus reais motivos, seus obstáculos e o conteúdo de sua história. Um minuto de atenção verdadeira pode significar uma eternidade para esse indivíduo. Pense nisso. 

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