Cotidiano

A Menina do Fundão

Aposto que você se lembra daquela magricela estranha que sentava no fundo da sala de aula e ficava desenhando e escrevendo coisas aleatórias, alheia a qualquer explicação do professor.

Cada um tem uma lembrança particular dela. A minha menina do fundão usava um óculos tão grande e redondo que parecia que estava com uma lupa na frente dos olhos. Era tão tímida, que escondia até as mãos quando não precisava delas; se interrompida, costumava dar respostas curtas e secas para as pessoas. Isso não significa que ela era grosseira. Tratava-se apenas de um mecanismo de defesa.

Mecanismos de defesa eram necessários perante a um universo esmagador e injusto no qual ela estava inserida. Toda sala de aula possui os valentões, populares, que falam um monte de merda e mesmo assim são ovacionados. Ao lado deles estão as garotas populares, as eleitas mais bonitas e que em muitos casos, aparentam ter uma fisionomia que ultrapassa o número de sua idade. 

Pessoas como a menina do fundão não tem vez em um cenário como este. Por si só ela já carrega muitos obstáculos emocionais e psicológicos dentro de si, e pra piorar ainda tem de lidar com o bullying e desprezo por parte daqueles e daquelas estudantes que se acham donos da escola. 

A escola é uma verdadeira ilusão, tanto no quesito educacional quanto no social. Somos obrigados a decorar disciplinas e conceitos que nunca usaremos em nossas vidas, impulsionado por um regime que não prioriza a individualidade de cada estudante, no que se refere as suas aptidões e talentos. Estimula a competitividade ao extremo, fornecendo recompensas superficiais àqueles que se adaptam ao sistema facilmente e sem questionar.

Quanto ao meio social, a ilusão é mais camuflada, porém não deixa de existir. Há uma hierarquia invisível acoplada no ambiente escolar, onde o topo é ocupado pelos valentões e meninas bonitas de acordo com um padrão pré-estabelecido de beleza e com a opinião popular. Amizades e gentilezas são medidos conforme o nível hierárquico de cada pessoa, e os alunos estranhos, como a menina do fundão, são motivo de piada, esnobe e segregação por parte daqueles que, dentro dos limites escolares, são reis.

Só que a escola chega ao fim. E quando tudo acaba é raro alguém lembrar de quem eram as pessoas no topo da pirâmide. O tempo não para, e também faz milagres. A garota popular que dominava a escola hoje pode ser ofuscada pela menina do fundão, que depois de certo período, naturalmente tornou-se mais bonita e apresentável, mais feliz e saudável e mais habilidosa socialmente longe do ambiente escolar.

As coisas mudam, e você que não deu atenção para ela naquela época, hoje pode se arrepender profundamente.  

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