Literatura

Os Cinco Domínios Estratégicos Expostos ao Entretenimento

Será que realmente temos alguma noção de como a tecnologia pode alterar drasticamente o cenário mercadológico e o paradigma de toda uma sociedade que se encontra imersa nesse contexto? O que a era digital, já em curso, pode modificar, destruir e recriar padrões comportamentais e comerciais e abalar todo o sistema e a vida individual de cada cidadão, que não vê outra maneira de sobreviver além de conservar sua resiliência?

No livro “Transformação Digital” de David L. Rogers discorre explicando como uma empresa de sucesso antes do advento da internet pode se adaptar e se reinventar na nova era em que vivemos e prosseguir em suas estratégias de negócio, desenhadas especificamente para o novo panorama no qual ninguém efetua compras ou consumo de serviços sem passar pelo crivo da internet e de suas ferramentas oferecidas e disponíveis ao usuário.

Rogers traça um plano de ação envolvendo cinco domínios estratégicos para as empresas analisarem em suas próprias ações de captação de clientes e recursos, além de valorização da marca e desenvolvimento de novos produtos. Os cinco domínios são: clientes, competição, dados, inovação e valor. O interessante é que esses cinco domínios se encaixam perfeitamente em um modelo de sociedade já existente em um país asiático e demonstrado ficcionalmente em um episódio da série Black Mirror.

O episódio denominado “Queda Livre” da série inglesa em questão tem uma trama baseada na vida da personagem Lacie que está inserida em um sistema totalitário de controle de dados e informações pessoais de cada indivíduo. Através do celular é possível avaliar as pessoas que convivemos no dia-a-dia entre uma e cinco estrelas e essa avaliação é responsável pela classificação do cidadão em um ranking online de pontuação.

As semelhanças aparecem quando colocamos os conceitos em seu devido lugar, fazendo com que as pessoas gradativamente percebam que não estamos muito longe dessa realidade. Assim, como neste episódio da série, o sistema de crédito social implantado na China, em tempos recentes, obriga o cidadão a seguir rigorosamente as regras pré-estabelecidas pelo sistema, com intuito de manter uma pontuação alta e, dessa forma, poder usufruir dos melhores serviços, que inclui, por exemplo, matrículas em boas escolas, contratação em empregos, aluguel de serviços de primeira qualidade, entre outros.

Podemos visualizar os cinco domínios estabelecidos por Rogers dispostos categoricamente nesse universo de “controle de gado”. No quesito clientes, é importante observar como o consumidor deixou de ser apenas um espectador e tornou-se protagonista em sua jornada de compra personalizada e no motivo que fez com que ele decidisse por algo no mercado. Com os celulares em mãos, e supondo avaliações disponíveis de usuários de boa pontuação, o consumidor não é mais um fantoche do marketing e da publicidade e sim uma relevante parte do processo da qual as empresas devem respeitar e se moldar de acordo com essa nova realidade.

A competição fica intrínseca ao assistir o episódio, uma vez que se deve almejar o máximo de pontos possíveis para se manter estável em posições superiores do ranking, e isso incentiva paulatinamente a discórdia e a rivalidade entre determinadas pessoas que não querem dividir suas regalias. Quanto aos dados, verifica-se que, em uma sociedade com tal configuração de distopia, que estão perfeitamente ordenados e padronizados para detectar todas as ações das pessoas e armazenar o conteúdo que interessa para manter uma linha do tempo coerente, qualificando e desqualificando as pessoas e dominando seus comportamentos e até pensamentos.

A inovação entra no contexto a partir do momento em que analisamos o quanto é difícil e ao mesmo tempo necessário para o mundo corporativo criar, testar e aplicar inovações a todo momento, considerando o predomínio de uma esfera tecnológica que implica grandes mudanças e que reinventa o cotidiano de cada indivíduo. Em uma realidade similar a China e ao episódio de Black Mirror qual a inovação tecnológica que poderá ser desenvolvida para reforçar e aperfeiçoar o sistema de controle vigente e, consequentemente, auxiliar uma determinada companhia a atingir maior destaque? 

Falando a respeito do valor, é inegável que cada empresa busque engrandecer o seu valor de mercado a partir de táticas midiáticas e encontrando o consumidor nos lugares que ele frequenta diariamente, ou seja, a própria internet e seu sistemas de dados. Quanto mais dados positivos coletados, a estrutura digital de vida de um cidadão é potencializada e o sistema lhe oferece mais oportunidades. Portanto, o valor individual torna-se tão importante quanto o valor de mercado para uma empresa. 

Chegamos à conclusão de que, independente se considerarmos uma realidade factível ou uma ficção de distopia, a tecnologia continuará evoluindo ao longo dos tempos e sua evolução gradativa vai em direção ao ponto de substituir cada vez mais a mão de obra humana e as incertezas que as acompanham. Vale ressaltar que o sistema de controle, exposto nesses dois casos, é fruto não somente da criatividade e engenhosidade humana, mas também do desejo pelo poder e pelo controle, se aproveitando de ferramentas tecnológicas que não deixam margem para qualquer dúvida. 

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